Treinamento de habilidades comportamentais implementadas pelos pais

O comprometimento das habilidades sociais é uma característica principal TEA. Pesquisas indicam que as habilidades sociais estão intimamente ligadas ao desenvolvimento social e consequências sociais negativas podem persistir se comportamentos sociais específicos não forem adquiridos. O presente estudo avaliou os efeitos do treinamento de habilidades comportamentais (BST) no ensino de quatro pais de crianças com TEA como treinadores de habilidades sociais. Um desenho de linha de base múltipla não simultânea entre as díades pai-filho foi empregado e a observação direta foi usada para avaliar o comportamento dos pais e da criança. Os resultados demonstraram melhora substancial no ensino de habilidades sociais para todos os participantes em habilidades treinadas e não treinadas. Medidas auxiliares do desempenho infantil indicaram melhora nas habilidades também. Altos níveis de respostas corretas de ensino foram mantidos em um mês de acompanhamento.

Fonte: Parent-implemented behavioral skills training of social skills. Rebecca K. Dogan et al., 2017

Implementação de Programas de Treinamento Parental (TP) digital

Um Programa de TP usando ao aplicativo ODAPP deve facilitar o trabalho de co-terapeuta dos pais e, ao mesmo tempo, facilitar o acompanhamento pelos profissionais. Muito embora criado para o ambiente do consultório para organizar manuais e folhas de registro, cada vez mais tem cumprido um papel importante fora do ambiente clínico. É por isso que o aplicativo organiza as atividades em MANUAIS – PROGRAMAS – ATIVIDADES assim como uma biblioteca organiza seus livros em estantes, temas e ordem alfabética:

  • MANUAL: contém PROGRAMAS
  • PROGRAMA: contém ATIVIDADES
  • ATIVIDADE: as intervenções que serão executadas nas crianças

Cada atividade acompanha uma folha de registro associada automaticamente à atividade quando ela é criada. Confira sua versão do aplicativo para conhecer os protocolos de registro disponíveis e como personalizá-los. Para todas as versões, uma AGENDA personalizada pode ser criada para cada paciente seguir sua rotina diária de atividades (check-list).

Ao iniciar uma atividade prepare o ambiente e tenha em mente as dicas sobre “previsibilidade e intencionalidade” e “manutenção das habilidades alcançadas” do último post. Possivelmente o terapeuta adicionou um video ou imagem como modelo para cada atividade registrada além da descrição textual.

Siga o roteiro de atividades no menu AGENDA e não deixe de fazer as anotações nas folhas de registro abaixo de cada atividade. Toda evolução é registrada no menu PROGRESSO. Tanto profissional quanto cuidador têm a mesma visão do progresso com informações numéricas e percentuais dos PROGRAMAS E MANUAIS executados. Data e horário de início e finalização de cada programa de atividades, bem como os percentuais de realização e sucesso alcançados. Adaptações que precisam ser feitas nas atividades são possíveis a partir da constatação da evolução no decorrer do processo terapêutico.

Os planos de intervenção remota, assim como a intervenção presencial, são individuais e personalizados, muito embora o profissional conte com recursos dentro do aplicativo que permitem aproveitar textos, videos e imagens aumentando sua produtividade na elaboração de materiais terapêuticos. Eleger metas simples e graduais garantem o sucesso do programa de TP usando o aplicativo ODAPP, uma vez que favorecem o engajamento dos pais aos assistirem os avanços e as metas serem, sucessivamente, alcançadas. Por isso, o protocolo de registro padrão consiste de dizer se a atividade foi realizada ou não, com sucesso ou não e se com ajuda ou não.

Vale lembrar que, independente das dificuldades da criança e dos pais em fazer as intervenções em casa ou o professor na escola, com orientação adequada e registro das ações no aplicativo ODAPP, todos se mostram capazes em realizar as intervenções. Então, se necessário, aumente o número de orientações parentais, apresente exemplos práticos e enfatize os sucessos dos pais em diferentes situações.

Implementação de programas de Treinamento Parental (TP)

Um Programa de TP exige aperfeiçoamento das habilidades do cuidador até alcançar o status de co-terapeuta mas preserva o papel principal dos pais que é de “pais” propriamente! É importante dotá-los de organização, confiança, motivação e autonomia para participarem ativamente do tratamento e por isso grande parte dos programas sugerem que as primeiras ações de estimulação da criança devam ser realizadas presencialmente em conjunto (terapeuta, família, educador se for o caso) para que o profissional possa apresentar o modelo de intervenção. Se isso não for possível, é importante maior atenção dos cuidadores quanto a:

  1. Ambiente: preparado de forma a manter a atenção da criança (preservar objetos de interesse, excluir itens que aumentam a distração).
  2. Previsibilidade e intencionalidade: a criança deve ser informada previamente das ações que serão feitas e suas consequências, independente de demonstrar aparente desentendimento. Use modelo verbais, visuais ou físicos se necessário. Estimular a iniciativa e protagonismo através de situações que premiem a criança de acordo com suas preferências.
  3. Manutenção das habilidades alcançadas: habilidades são adquiridas, em geral, com condicionamento, repetição e premiação. Mesmo alcançado o objetivo de determinada atividade, muitas vezes é importante mantê-la em execução para minimizar as chances de regressão ou confirmar a aquisição das respectivas habilidades.

Um Programa de TP pode ser implementado da forma convencional com os profissionais treinando os cuidadores presencialmente ou por meio de tecnologias de teleconsulta, telemonitaoramento ou teleconsulta como explicado no último post sobre o assunto. O aplicativo ODAPP neste caso é uma das alternativas para a implementação de um Programa de TP completo.

Algumas referências científicas acerca do Treinamento Parental (TP)

O TP [1] [2] [3] [4] é um método de trabalho para treinamento e posterior aplicação dos conhecimentos adquiridos diretamente na criança pelos pais. Ao dotarmos esses cuidadores de conhecimento técnico-prático para lidar com crianças com TEA, principalmente nas atividades da vida diária (AVD) em casa, possibilitamos não só o aumento da frequência e intensidade do tratamento como também devolvemos aos pais a confiança, motivação e autonomia para participarem ativamente do tratamento. Temos que destacar o vínculo natural que existe entre pais e filhos, o que aumenta as chances de interação e engajamento entre eles.

Quando os pais são bem treinados para lidar com as dificuldades e potencialidades das crianças são esperados inúmeros benefícios no funcionamento adaptativo dela, bem como, há uma diminuição dos comportamentos inadequados e comprometimentos sócio-cognitivos. Há uma melhora na qualidade de vida de toda a família.

Um trabalho [5] bem interessante sobre TP pode ser encontrado em Wong et al. (2014) que identificaram 27 práticas comprovadas cientificamente como de alta eficácia para o tratamento dos TEA e, dentre estas práticas, está a intervenção implementada ou mediada pelos pais. A literatura traz inúmeras evidências da importância e eficiência do TP, de modo que o treino é parte dos programas de tratamentos baseados na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), sendo um dos pilares mais importantes da intervenção.

Referências

[1] Andrade, A.A., Oliveira, A.L. & Teixeira, I. A. (2017) Treinamento de pais. In: Walter Camargos Jr et col.(orgs) Intervenção precoce no autismo. Belo Horizonte: Editora Artesã, 1ª edição.

[2] Bagaiolo, L. & Pacífico, C.R. (2018) Orientação e treino de pais. In: Cintia Perez Duarte, Luciana Coltri e Silva & Renata de Lima Velloso (orgs). Estratégias da Análise do Comportamento Aplicada para pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo. São Paulo: Memnon, 1ª edição.

[3] Kenyon, P.B. (2018) Ensino em ambientes naturais. In: Cintia Perez Duarte, Luciana Coltri e Silva & Renata de Lima Velloso (orgs). Estratégias da Análise do Comportamento Aplicada para pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo. São Paulo: Memnon, 1ª edição.

[4] Oliveira, J. J. M. Intervenção centrada na família: influência nas habilidades comunicativas e interativas da criança com Transtorno do Espectro Autista e no empoderamento parental. Dissertação de mestrado. Rio Grande do Sul: Universidade Federal de Santa Maria.

[5] Wong, C., Odom, S.L., Hume, K.A. et al. (2014) Evidence-based practices for children, youth and young adults with Autism Spectrum Disorder. Chapel Hill: The University of North Carolina, Frank Porter Graham Child Development Institute, Autism Evidence-based practice review group.