Base de conhecimento

Panorama da formação em psicologia para transtorno do espectro do autismo em Minas Gerais

O presente trabalho teve como objetivo desenvolver um panorama atual da formação de psicólogos quanto ao TEA. Para isso, foram analisados os currículos de cursos de psicologia do estado de Minas Gerais. Os documentos examinados foram coletados via e-mail, por meio de sites institucionais e pelas redes sociais em 2016. As disciplinas analisadas foram agrupadas em cinco grandes áreas da psicologia: educação e educação inclusiva, desenvolvimento humano, avaliação psicológica, psicopatologia e análise comportamental. De um total de 44 instituições que disponibilizaram suas matrizes curriculares para a pesquisa, foram apontadas 530 disciplinas com potencial para abordagem da temática. Como conclusão, o estudo oferece elementos que ratificam a fragilidade presente na formação em psicologia em relação ao autismo, assunto de demanda crescente na conjuntura social e de saúde brasileira.

Fonte: http://dx.doi.org/10.5902/1984686X40092

Treinamento de habilidades comportamentais implementadas pelos pais

O comprometimento das habilidades sociais é uma característica principal TEA. Pesquisas indicam que as habilidades sociais estão intimamente ligadas ao desenvolvimento social e consequências sociais negativas podem persistir se comportamentos sociais específicos não forem adquiridos. O presente estudo avaliou os efeitos do treinamento de habilidades comportamentais (BST) no ensino de quatro pais de crianças com TEA como treinadores de habilidades sociais. Um desenho de linha de base múltipla não simultânea entre as díades pai-filho foi empregado e a observação direta foi usada para avaliar o comportamento dos pais e da criança. Os resultados demonstraram melhora substancial no ensino de habilidades sociais para todos os participantes em habilidades treinadas e não treinadas. Medidas auxiliares do desempenho infantil indicaram melhora nas habilidades também. Altos níveis de respostas corretas de ensino foram mantidos em um mês de acompanhamento.

Fonte: Parent-implemented behavioral skills training of social skills. Rebecca K. Dogan et al., 2017

Custo médio de uma família com filhos autistas ao longo da vida

O presente estudo compara despesas entre famílias australianas cujos filhos receberam um diagnóstico formal de TEA imediatamente após suspeitar de atipicidade do desenvolvimento e procurar aconselhamento, com famílias que sofreram um atraso entre as primeiras suspeitas e o diagnóstico formal. Foram entrevistadas famílias com um ou mais filhos com diagnóstico de TEA, totalizando 521 crianças com diagnóstico sendo 317 registros incluídos na análise final do trabalho. O custo médio da família foi estimado em AUD$34.900 por ano. Para cada sintoma adicional relatado, foram adicionados aproximadamente US$1.400 para a família por ano. Embora houvesse pouca influência direta nos custos associados a um atraso no diagnóstico, o atraso foi associado a um aumento modesto no número de sintomas de TEA, afetando indiretamente o custo do TEA. Este estudo foi financiado pelo Departamento de Serviços Sociais (DSS), anteriormente Departamento de Famílias, Habitação, Serviços Comunitários e Assuntos Indígenas (FaHCSIA), com apoio em espécie do Autism CRC, estabelecido e apoiado pela Pesquisa Cooperativa do Governo Australiano.

Um dos pontos também interessantes do artigo é sobre a perda de produtividade associada ao diagnóstico de um filho com TEA calculada com base no impacto auto-relatado do diagnóstico do filho na capacidade de trabalho dos pais/cuidadores e, se o status do emprego foi afetado, o tamanho dessa redução como função das horas na semana média de trabalho. O artigo ainda discorre sobre: (i) custos com deslocamentos relacionados ao tratamento; (ii) perdas financeiras com redução da carga horária de trabalho para cuidar dos filhos e; (iii) diagnóstico ‘imediato’ versus ‘atrasado’.

Contrariamente às expectativas, o artigo diz que não houve diferenças estatisticamente significativas nos custos relacionados ao recebimento do diagnóstico de TEA, seja cedo ou tarde após a suspeita. Sugeriu-se duas razões possíveis para isso. Em primeiro lugar, dado o achado acima de que o aumento da sintomatologia está diretamente relacionado ao custo do TEA, a identificação mais imediata do TEA pode criar uma situação em que a melhora nos resultados e o efeito nas medidas associadas à sintomatologia diminuem a influência do atraso no diagnóstico no custo final do TEA. Essa interpretação parece ser consistente com a análise da mediação, na qual um efeito indireto do atraso no diagnóstico sobre os custos parecia ser mediado por uma associação entre o aumento da sintomatologia e o aumento do atraso no diagnóstico. Em segundo lugar, as famílias com uma criança com TEA podem adaptar seu equilíbrio trabalho-família, independentemente de a criança ter um diagnóstico ou não. Isso se reflete na constatação de que o maior custo relatado pelos pais foi uma perda de renda decorrente da redução do horário de trabalho. Isso é consistente com um relatório anterior afirmando que uma perda de aproximadamente 14% da renda familiar é frequentemente a consequência de ter um filho com TEA. [1], equivalente a US$7.200 (com base na renda mediana e na taxa de câmbio média de 2008). Os resultados do presente estudo sugerem uma perda substancialmente maior (29%) da renda familiar combinada.

Fonte: Horlin C, Falkmer M, Parsons R, Albrecht MA, Falkmer T (2014) O custo dos transtornos do espectro do autismo. PLoS ONE 9 (9): e106552. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0106552

Análise do comportamento e autismo: marcos históricos descritos em publicações norteamericanas influentes

A análise do comportamento aplicada (ABA) ao autismo constitui-se como um domínio influente nos EUA, cuja eficácia dos procedimentos provenientes desse campo é amplamente reconhecida. O entendimento das contingências que operam nesse ambiente profissional e o conhecimento das práticas que vêm produzindo sucesso como consequência podem trazer benefícios para outros ambientes, incluindo a comunidade científica brasileira. O objetivo deste artigo é apresentar uma breve narrativa de marcos históricos e práticas descritos em leituras influentes no contexto acadêmico norte-americano, com ênfase na formação profissional e práticas aplicadas ao TEA. Questões relacionadas à evolução da área no Brasil são discutidas.

Fonte: Oda, F. (2018). Análise do comportamento e autismo: Marcos históricos descritos em publicações norteamericanas influentes. Revista Brasileira De Terapia Comportamental E Cognitiva20(3), 86-98. https://doi.org/10.31505/rbtcc.v20i3.1218

Implementação de Programas de Treinamento Parental (TP) digital

Um Programa de TP usando ao aplicativo ODAPP deve facilitar o trabalho de co-terapeuta dos pais e, ao mesmo tempo, facilitar o acompanhamento pelos profissionais. Muito embora criado para o ambiente do consultório para organizar manuais e folhas de registro, cada vez mais tem cumprido um papel importante fora do ambiente clínico. É por isso que o aplicativo organiza as atividades em MANUAIS – PROGRAMAS – ATIVIDADES assim como uma biblioteca organiza seus livros em estantes, temas e ordem alfabética:

  • MANUAL: contém PROGRAMAS
  • PROGRAMA: contém ATIVIDADES
  • ATIVIDADE: as intervenções que serão executadas nas crianças

Cada atividade acompanha uma folha de registro associada automaticamente à atividade quando ela é criada. Confira sua versão do aplicativo para conhecer os protocolos de registro disponíveis e como personalizá-los. Para todas as versões, uma AGENDA personalizada pode ser criada para cada paciente seguir sua rotina diária de atividades (check-list).

Ao iniciar uma atividade prepare o ambiente e tenha em mente as dicas sobre “previsibilidade e intencionalidade” e “manutenção das habilidades alcançadas” do último post. Possivelmente o terapeuta adicionou um video ou imagem como modelo para cada atividade registrada além da descrição textual.

Siga o roteiro de atividades no menu AGENDA e não deixe de fazer as anotações nas folhas de registro abaixo de cada atividade. Toda evolução é registrada no menu PROGRESSO. Tanto profissional quanto cuidador têm a mesma visão do progresso com informações numéricas e percentuais dos PROGRAMAS E MANUAIS executados. Data e horário de início e finalização de cada programa de atividades, bem como os percentuais de realização e sucesso alcançados. Adaptações que precisam ser feitas nas atividades são possíveis a partir da constatação da evolução no decorrer do processo terapêutico.

Os planos de intervenção remota, assim como a intervenção presencial, são individuais e personalizados, muito embora o profissional conte com recursos dentro do aplicativo que permitem aproveitar textos, videos e imagens aumentando sua produtividade na elaboração de materiais terapêuticos. Eleger metas simples e graduais garantem o sucesso do programa de TP usando o aplicativo ODAPP, uma vez que favorecem o engajamento dos pais aos assistirem os avanços e as metas serem, sucessivamente, alcançadas. Por isso, o protocolo de registro padrão consiste de dizer se a atividade foi realizada ou não, com sucesso ou não e se com ajuda ou não.

Vale lembrar que, independente das dificuldades da criança e dos pais em fazer as intervenções em casa ou o professor na escola, com orientação adequada e registro das ações no aplicativo ODAPP, todos se mostram capazes em realizar as intervenções. Então, se necessário, aumente o número de orientações parentais, apresente exemplos práticos e enfatize os sucessos dos pais em diferentes situações.

Implementação de programas de Treinamento Parental (TP)

Um Programa de TP exige aperfeiçoamento das habilidades do cuidador até alcançar o status de co-terapeuta mas preserva o papel principal dos pais que é de “pais” propriamente! É importante dotá-los de organização, confiança, motivação e autonomia para participarem ativamente do tratamento e por isso grande parte dos programas sugerem que as primeiras ações de estimulação da criança devam ser realizadas presencialmente em conjunto (terapeuta, família, educador se for o caso) para que o profissional possa apresentar o modelo de intervenção. Se isso não for possível, é importante maior atenção dos cuidadores quanto a:

  1. Ambiente: preparado de forma a manter a atenção da criança (preservar objetos de interesse, excluir itens que aumentam a distração).
  2. Previsibilidade e intencionalidade: a criança deve ser informada previamente das ações que serão feitas e suas consequências, independente de demonstrar aparente desentendimento. Use modelo verbais, visuais ou físicos se necessário. Estimular a iniciativa e protagonismo através de situações que premiem a criança de acordo com suas preferências.
  3. Manutenção das habilidades alcançadas: habilidades são adquiridas, em geral, com condicionamento, repetição e premiação. Mesmo alcançado o objetivo de determinada atividade, muitas vezes é importante mantê-la em execução para minimizar as chances de regressão ou confirmar a aquisição das respectivas habilidades.

Um Programa de TP pode ser implementado da forma convencional com os profissionais treinando os cuidadores presencialmente ou por meio de tecnologias de teleconsulta, telemonitaoramento ou teleconsulta como explicado no último post sobre o assunto. O aplicativo ODAPP neste caso é uma das alternativas para a implementação de um Programa de TP completo.

Algumas referências científicas acerca do Treinamento Parental (TP)

O TP [1] [2] [3] [4] é um método de trabalho para treinamento e posterior aplicação dos conhecimentos adquiridos diretamente na criança pelos pais. Ao dotarmos esses cuidadores de conhecimento técnico-prático para lidar com crianças com TEA, principalmente nas atividades da vida diária (AVD) em casa, possibilitamos não só o aumento da frequência e intensidade do tratamento como também devolvemos aos pais a confiança, motivação e autonomia para participarem ativamente do tratamento. Temos que destacar o vínculo natural que existe entre pais e filhos, o que aumenta as chances de interação e engajamento entre eles.

Quando os pais são bem treinados para lidar com as dificuldades e potencialidades das crianças são esperados inúmeros benefícios no funcionamento adaptativo dela, bem como, há uma diminuição dos comportamentos inadequados e comprometimentos sócio-cognitivos. Há uma melhora na qualidade de vida de toda a família.

Um trabalho [5] bem interessante sobre TP pode ser encontrado em Wong et al. (2014) que identificaram 27 práticas comprovadas cientificamente como de alta eficácia para o tratamento dos TEA e, dentre estas práticas, está a intervenção implementada ou mediada pelos pais. A literatura traz inúmeras evidências da importância e eficiência do TP, de modo que o treino é parte dos programas de tratamentos baseados na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), sendo um dos pilares mais importantes da intervenção.

Referências

[1] Andrade, A.A., Oliveira, A.L. & Teixeira, I. A. (2017) Treinamento de pais. In: Walter Camargos Jr et col.(orgs) Intervenção precoce no autismo. Belo Horizonte: Editora Artesã, 1ª edição.

[2] Bagaiolo, L. & Pacífico, C.R. (2018) Orientação e treino de pais. In: Cintia Perez Duarte, Luciana Coltri e Silva & Renata de Lima Velloso (orgs). Estratégias da Análise do Comportamento Aplicada para pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo. São Paulo: Memnon, 1ª edição.

[3] Kenyon, P.B. (2018) Ensino em ambientes naturais. In: Cintia Perez Duarte, Luciana Coltri e Silva & Renata de Lima Velloso (orgs). Estratégias da Análise do Comportamento Aplicada para pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo. São Paulo: Memnon, 1ª edição.

[4] Oliveira, J. J. M. Intervenção centrada na família: influência nas habilidades comunicativas e interativas da criança com Transtorno do Espectro Autista e no empoderamento parental. Dissertação de mestrado. Rio Grande do Sul: Universidade Federal de Santa Maria.

[5] Wong, C., Odom, S.L., Hume, K.A. et al. (2014) Evidence-based practices for children, youth and young adults with Autism Spectrum Disorder. Chapel Hill: The University of North Carolina, Frank Porter Graham Child Development Institute, Autism Evidence-based practice review group.

A consulta online no TEA realmente funciona?


Quando pensamos em consulta online rapidamente nos vem à mente a figura de um profissional auxiliando o seu paciente por videoconferência. Ocorre que existe a teleconsulta, telemonitoramento e teleconsultoria que podem resolver essa questão de formas diferentes como vimos no último post sobre a Diferença entre teleconsulta, telemonitoramento e teleconsultoria”.

Quando o nosso paciente é uma criança pequena, ou mesmo um adolescente ou adulto pouco responsivo ou inquieto, parece que este tipo de atendimento à distância simplesmente não funciona!

A questão principal aqui não é o ser “online” ou “teleconsulta” pois a tecnologia em si não é fim mas meio para conectar quem oferta a terapia com quem precisa. Mesmo que precisemos de um intermediário para facilitar essa conexão: o cuidador!

Esse cuidador pode ser outro profissional (com perfil mais adequado para contato direto com a criança), pessoas do convívio diário com a criança (pais, avós, babás) e profissionais dentro da escola (professores, auxiliares, mediadores). Um método de trabalho muito utilizado e difundido na psicologia para capacitação de cuidadores, em especial na Análise do Comportamento Aplicada e na Terapia Cognitivo-Comportamental, é o Treinamento Parental, ou Treinamento de Pais (TP).