Estudos sobre TEA e distúrbios do sono

9

Os distúrbios do sono aparecem entre 40 a 80% de indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Eles normalmente se queixam de dificuldades para dormir, acordar frequentemente durante a noite, inquietações e poucas horas do sono. Estudos ainda comprovam que dificuldades na hora de dormir são mais frequentes em pessoas com autismo regressivo e aumentam com a gravidade do autismo. Além disso, os distúrbios do sono podem aumentam quando o indivíduo apresenta ansiedade, déficit de atenção, impulsividade e uso de medicação.

Outros dois estudos independentes mostraram que distúrbios do sono podem estar ligados realmente á ansiedade e a hipersensibilidade sensorial dos autistas. Os sintomas melhoraram com intervenção Short Sensory Profile (modelo de regressão hierárquica) associadas á melhora da resposta sensorial e filtragem auditiva. O objetivo do presente estudo foi realizar um exame mais aprofundado da relação entre os distúrbios do sono e sensibilidades sensoriais, utilizando o completo Perfil Sensorial do Cuidador. Ao contrário do Short Sensory Profile, que integra pontuações em vários domínios sensoriais, o Perfil Sensorial do Cuidador contém um número maior de perguntas que permitem avaliar os níveis de hiposensibilidade e hipersensibilidade separados para cada um dos cinco domínios sensoriais (audição, visão, gosto / cheiro, vestibular e toque). Isso permitiu que os cientistas determinassem se os distúrbios do sono estão mais fortemente associados a algumas sensibilidades sensoriais do que outros.

Foram recrutadas 131 crianças, sendo 69 crianças autistas pelo Centro de Autismo de Negev e 62 crianças controle, que possuem características de desenvolvimento regulares, foram questionadas através do fórum online da Universidade de Bem Gurion. O questionário Perfil Sensorial do Cuidador contém 125 perguntas que quantificam a frequência de respostas comportamentais anormais a várias experiências sensoriais. No presente estudo, incluem questões sobre processamento auditivo, visual, vestibular, tátil e sensorial oral. Essas perguntas são divididas em itens de limiar alto e limiar baixo com pontuações mais baixas indicando sintomas mais graves. Examinaram as diferenças entre os grupos para cada uma dessas pontuações separadamente e também para a pontuação bruta total, que combina itens mencionados acima.

Os resultados de sensibilidade sensorial do questionário comprovaram que a pontuação bruta de crianças autistas era menor comparada com a pontuação de crianças do grupo controle. Contudo, foi identificado que a pontuação de crianças autistas que tomam medicação não sofreu muitas alterações em relação a pontuação de crianças autistas que não tomam. Quanto aos distúrbios do sono, crianças autistas tiveram uma pontuação significativamente maior comparado ao grupo controle, exceto em distúrbios respiratórios, acordar a noite e sonolência durante o dia.

Os cientistas tiveram o cuidado de comparar os resultados com grupos de crianças autistas diferentes e constataram que as pontuações foram similares. Porém, crianças autistas que não tomam medicação possuem maiores problemas em distúrbios do sono comparados com as crianças que fazem o uso de alguma medicação. Esse resultado foi surpreendente porque quando analisado a sensibilidade sensorial, a pontuação das crianças não teve grandes diferenças. Os pesquisadores compararam os distúrbios do sono com as pontuações brutas da sensibilidade sensorial de cada domínio sensorial e constataram que há relações negativas entre a sensibilidade ao toque e da fala com distúrbios do sono em crianças autistas e relações negativas entre a sensibilidade ao toque e vestibular em crianças do grupo controle. Os outros domínios sensoriais não tiveram grande impacto nos problemas com o sono.

O presente estudo revelou que a hipersensibilidade ao toque provavelmente é um fator importante na dificuldade de dormir e outros distúrbios do sono em crianças com autismo. Esse resultado abre porta para novos estudos na eficácia de intervenções terapêuticas relacionada à sensibilidade ao toque em crianças e indivíduos com TEA que possui dificuldades de dormir, podendo incorporar técnicas objetivas e mais diretas, tais como medidas psicométricas e de neuroimagem para sensibilidade tátil, bem como actigrafia e polissonografia para distúrbios do sono.

Pesquisa publicada na Molecular Autism e desenvolvida no Behavioral Science Department da Emek Yesreel College; Soroka University Medical Center; e Ben Gurion University, todas localizadas em Israel. Pode-se encontrar a pesquisa na PubMed.

TZISCHINSKY, Orna et al. Sleep disturbances are associated with specific sensory sensitivities in children with autism. Molecular Autism, v. 9, n. 1, p. 22, 2018.

Adaptado por Ana Carolina Gonçalves, da redação do Observatório do Autista®.

Pesquisa sugere que “cérebro social” é alterado nos estágios iniciais de crianças autistas

8 foto

Publicada na revista eLife, pesquisa desenvolvida por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Genebra (UNIGE), na Suíça, encontraram mudanças precoces no cérebro que correspondem a socialização de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Sua pesquisa pode abrir o caminho para novas intervenções terapêuticas nos primeiros anos de vida, enquanto o cérebro passa por mudanças. Também auxiliará na descoberta de evidências diretas desse desenvolvimento prejudicado durante a infância para os anos pré-escolares.

À medida que as crianças se desenvolvem, elas principalmente se movem em direção e respondem a sugestões sociais – como vozes, rostos e gestos humanos. Ao mesmo tempo, seu cérebro desenvolve uma rede de regiões especializadas em traduzir essas sugestões, conhecidas como “cérebro social”.

No entanto, uma observação comum em crianças diagnosticadas posteriormente com TEA é a redução da sensibilidade e da atenção em relação a essas sugestões sociais durante o primeiro ano de vida. Essa aparente indiferença às sugestões sociais supõe que impossibilite o desenvolvimento normal do cérebro social nos primeiros estágios de desenvolvimento.

Os resultados do estudo demonstram que as intervenções, que focam na melhora da capacidade social da criança para responder a sugestões sociais nos estágios iniciais, podem religar o cérebro enquanto ainda é possível fazê-lo, potencialmente restaurando o desenvolvimento do cérebro social. O Dr. Holger Sperdin, pesquisador de pós-doutorado na Faculdade de Medicina do UNIGE e principal autor do estudo, explica o que ele e sua equipe tomaram como partida para a pesquisa: “Como crianças com autismo têm menos atenção preferencial por gesticulações sociais, nós sugerimos que quando mostrássemos imagens que estimulam comunicação social, as crianças autistas demonstrariam diferençastanto na maneira como exploram visualmente essas imagens quanto na forma como suas redes cerebrais processam informações sociais, em comparação com crianças tipicamente em desenvolvimento”.

Tecnologia de rastreamento ocular

A equipe usou um método de monitoramento eletrofisiológico chamado eletroencefalografia (EEG) para estudar a atividade cerebral das crianças e uma poderosa tecnologia de rastreamento ocular para observar seus olhares enquanto assistiam a vídeos apresentando interações sociais humanas. Eles descobriram que as crianças com TEA tinham padrões diferentes de olhar enquanto assistiam aos vídeos quando comparado com crianças em desenvolvimento típico, e que isso era acompanhado por alterações na conectividade das células nervosas e no fluxo de informações no cérebro.

A equipe também observou em crianças autistas, o que é conhecido como “aumento da direção” em duas frequências específicas de ondas cerebrais – alfa e teta – bem como altos níveis de conectividade entre as células nervosas em certas regiões do cérebro. A frequência das ondas cerebrais teta e as regiões do cérebro afetadas são ambas conhecidas como componentes importantes do “cérebro social” e a frequência alfa é importante para a atenção visual. Esses achados representam a primeira evidência de que as diferenças na exploração visual das imagens coincidem com as mudanças na conectividade entre regiões-chave do cérebro social em crianças muito jovens com TEA. As regiões do cérebro que geram essas frequências de ondas cerebrais podem, portanto, se desenvolver de forma diferente em crianças autistas em comparação com crianças tipicamente em desenvolvimento.

“Nossos resultados mostram pela primeira vez a presença de alterações no fluxo de informações de áreas cerebrais, envolvidas no processamento social de estímulos, em crianças e pré-escolares com Transtornos do Espectro Autista”, conclui a autora sênior Marie Schaer, professora assistente da Universidade de Genebra, Suíça. “Essas alterações dentro das regiões do cérebro social estão presentes nos estágios iniciais da TEA e justificam uma investigação mais aprofundada sobre as intervenções terapêuticas direcionadas às habilidades de orientação social. Podem também ajudar a remediar o desenvolvimento social do cérebro durante esse estágio crítico, quando a plasticidade neural ainda é possível”.

Materiais cedidos pela Université de Genève e adaptado do site Science Daily 
(https://www.sciencedaily.com/releases/2018/02/180227090721.htm).

Adaptado por Ana Carolina Gonçalves, da redação do Observatório do Autista®.

Sobre as terapias comportamentais DIR/Floortime, ESDM e TEACCH

2 - tratamentos

Autismo é um distúrbio complexo do desenvolvimento que afeta principalmente a fala, o comportamento, as interações sociais e afetivas de indivíduo. Sabe-se que a manifestação dos sintomas é diferente para cada pessoa ou criança, sendo assim o transtorno pode ser classificado de leve a severo. Baseado neste parâmetro, o portador de Transtorno do Espectro Autista (TEA) deve ter um tratamento individualizado para atender a necessidade e dificuldade de cada um. Hoje em dia, encontra-se variados tratamentos para o autismo e, neste artigo, citaremos os principais e seus benefícios.

Os tratamentos ajudam nas habilidades e desenvolvimento como comunicação, socialização, alfabetização e controle dos comportamentos repetitivos e estereotipados dos indivíduos autistas, então eles devem ser iniciados o quanto antes para que os comportamentos não prolonguem e interfiram na sua vida adulta.

Atualmente, as pesquisas científicas estão trabalhando na produção de diversas intervenções para minimizar os sintomas do distúrbio e estabelecer bem-estar dos autistas e suas famílias. Os tratamentos que destacaremos neste artigo são: o modelo Denver de Intervenção Precoce; Teacch e DIR Floortime.

Modelo Denver

O Modelo Denver de Intervenção Precoce (ESDM – Early Start Denver Model) é direcionado para crianças com autismo entre 1 a 5 anos (12-60 meses) e tem a intenção de trabalhar a comunicação receptiva e expressiva, competências sensoriais, competências motoras e comportamento adaptativo. Os níveis de competência são divididos por faixa etária: Nível 1: 12-18 meses; Nível 2: 18-24 meses; Nível 3: 24-36 meses; Nível 4: 36-48 meses.

Os benefícios do modelo foram bastante significativos podendo ressaltar a aceleração do desenvolvimento, melhora nos aspectos motores e na linguagem, incluindo ganhos importantes na comunicação receptiva e expressiva e no desenvolvimento sociocomunicativo, especialmente na fala espontânea. Por outro lado, o método não mostrou avanço na socialização de pessoas fora da família e nas atividades da vida diária.

Modelo TEACCH

O TEACCH, ou Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com déficits relacionados à Comunicação, aborda um método transdisciplinar que envolve o aspecto educacional e clínico e baseia-se na Teoria Behaviorista e a Psicolinguística Esta última foi a teoria que mais pesquisou estratégias para diminuir os déficits de comunicação do Autismo e utiliza recursos visuais para enriquecer a conexão entre o pensamento e a linguagem, proporcionando uma maior riqueza e facilidade na comunicação.

O tratamento procura melhorar adaptação de cada indivíduo através do aprimoramento das habilidades e enriquecendo o ambiente para incentivar a socialização; promove a troca de conhecimento entre os pais e os profissionais especializados em transtornos de desenvolvimento, apontando os principais pontos que devem ser priorizados e trabalhados tanto no espaço clínico como em casa; avaliar qual habilidade a ser praticada e método que auxilia o desenvolvimento da criança; trabalhar de em um modelo transdisciplinar e geral, fazendo que com os profissionais que trabalham com esse método possa ajudar a controlar o maior número de problemáticas envolvidas ao transtorno.

DIR Floortime

Do inglês, Developmental, Individual Difference, Relationship-based Model (DIR®/Floortime™), o modelo visa trabalhar o desenvolvimento, a diferença individual e o relacionamento das crianças com outras pessoas. É um método que auxilia pais, educadores e outros profissionais a analisar o indivíduo com TEA e empregar a melhor intervenção que desenvolve as dificuldades e pontos importantes do autista.

O modelo procura construir uma base para aumentar as capacidades sociais, emocionais e intelectuais de maneira generalizada, diferente de outros modelos que trabalham apenas comportamentos e habilidades de modo isolado. Esse tratamento permite que as atividades desenvolvidas acessem diferentes regiões do cérebro e da mente, fazendo com que eles sejam acionados de maneira conjunta.

A parte D da sigla representa a parte de desenvolvimento do modelo e podemos destacar que neste momento é trabalhado o desenvolvimento de capacidades importantes como manter-se calmo e controlado, encontrar e se relacionar com outras pessoas, iniciar e responder a todos os tipos de comunicação e melhorar aspectos cognitivos. O sucesso deste conjunto ajuda a crianças nas relações interpessoais e na vida academia e profissional.

A letra I corresponde às diferenças individuas de cada criança, estudando como ela recebe, entende e transmite as informações do ambiente. Procura buscar as percepções mais sensíveis da criança como as sensações aos toques e sons e como ela capta informações ou planeja suas ações.

A letra R significa a parte que analisa os relacionamentos da criança com outras pessoas como educadores, profissionais, familiares, cuidadores, colegas e outros que possuem afinidades e relações afetivas. Essa parte descreve e compara a aprendizagem realizada por pessoas de sua convivência com as aprendizagens feitas baseadas nas diferenças individuais de capacidade e desenvolvimento.

O Floortime™ procura trabalhar as emoções e habilidades da criança e instigá-la com desafios para desenvolver suas capacidades. Um exemplo comum é em jovens autistas que são incentivados a andar e em crianças a falar e se comunicar. O método DIR®/Floortime™ abrange todas as técnicas com o fim de querer que a criança evolua e supere seus desafios e principais dificuldades.

Referências

GREENSPAN, Stanley; WIEDER, Serena. DIR®/Floortime™ Model. The International Council on Developmental and Learning Disorders, 2008.

LÖHR, Thaise. Intervenção precoce em crianças com autismo: modelo Denver para a promoção da linguagem, da aprendizagem e da socialização. Educar em Revista, v. 32, n. 59, p. 293-297, 2016.

KWEE, Caroline Sianlian; SAMPAIO, Tania Maria Marinho; ATHERINO, Ciríaco Cristóvão Tavares. Autismo: uma avaliação transdisciplinar baseada no programa TEACCH. Revista CEFAC, v. 11, n. 2, 2009.

Por Ana Carolina Gonçalves, da redação do Observatório do Autista®.

Ácido fólico pode reduzir o risco de autismo provocado por medicamentos para epilepsia e produtos tóxicos

5 - acido folico

O ácido fólico é uma vitamina B e, normalmente, é usado como suplemento na gravidez para evitar problemas congênitos. De acordo com cinco pesquisas publicadas nos últimos meses, o ácido fólico pode reduzir o risco de autismo e aliviar as características da condição.

Três destes estudos indicam que o ácido fólico, como suplemento na gravidez, diminui o risco de autismo associado á exposição de fármacos epilépticos ou produtos tóxicos da criança no útero. Os suplementos pré-natais são conhecidos por prevenir problemas congênitos (durante a gravidez).

Pesquisas com crianças expostas às drogas epilépticas Durante a pesquisa das gestações com crianças expostas as drogas epilépticas, revisaram dados médicos para 104.946 nascimentos na Noruega entre 1999 e 2008. Eles se concentraram em 288 mulheres que tomaram drogas epilépticas durante seus 328 gestações. Quando as mães estavam grávidas entre o período de 17 a 30 semanas, relataram a ingestão do ácido fólico como suplementação e, posteriormente, quando seus filhos tinham 18 a 36 meses de idade, responderam um questionário que avaliavam a presença do autismo nas crianças. Dos 68 filhos cujas mães não tomaram ácido fólico, 11 (32 por cento) apresentaram características de autismo aos 18 meses de idade; 9 das crianças (26 por cento) apresentaram esses traços aos 36 meses. Em comparação com as mulheres que tomaram ácido fólico, 15 das crianças de 18 meses (9 por cento) e 8 das crianças de 36 meses de idade (6 por cento) apresentaram traços de autismo. Sendo assim, os bebês que não tiveram suplementação do ácido fólico durante a gestação foram quase seis vezes mais passíveis de mostrar traços de autismo aos 18 meses e oito vezes mais passíveis aos 36 meses, quando comparados com crianças que tiveram a suplementação.
Ação do ácido fólico contra pesticidas e produtos químicos

Os outros dois estudos sobre suplementos analisaram os partos na Califórnia entre 1997 e 2008. Os pesquisadores exploraram se o ácido fólico reduz o risco de autismo provoca por pesticidas. Quando as crianças tinham entre 2 e 5 anos, as mães relataram a ingestão de ácido fólico e outras vitaminas – a partir de suplementos e alimentos – durante a gravidez. Eles questionaram as mães a frequência da exposição pré-natal aos inseticidas na casa para 296 crianças com autismo e 220 crianças saudáveis. Eles também estimaram a exposição pré-natal aos pesticidas com base na proximidade das casas próximas a fazendas. Entre as mulheres que ingeriram ácido fólico acima da média, os bebês expostos aos pesticidas durante a gravidez são aproximadamente de 1,3 a 1,9 vezes mais prováveis apresentar autismo quando comparado com crianças sem exposição.

Mulheres com ingestão de ácido fólico abaixo da média e exposição a pesticidas podem dobrar o risco. No outro estudo avaliando nascimentos do estado da Califórnia, os pesquisadores estimaram a exposição pré-natal a cinco tipos de poluentes atmosféricos. O estudo incluiu 346 crianças com autismo e 260 de crianças saudáveis como grupo controle. Os pesquisadores constataram que a ingestão de ácido fólico acima da média não tem um efeito estatisticamente significativo no risco de autismo da maioria dos tipos de poluentes do ar – um risco que está longe de ser estabelecido -, contudo está ligada a um risco de autismo um pouco menor devido à exposição a um poluente do ar: dióxido de nitrogênio. Todos os estudos levaram em consideração, a ingestão de outras vitaminas e minerais da mãe, idade, renda salarial, nível de escolaridade, tabagismo, consumo de álcool, gravidez precoce e o status socioeconômico. Além disso, os pesquisadores ainda precisam descobrir como o ácido fólico pode mitigar o risco de autismo associado a medicamentos, pesticidas ou poluição do ar, uma vez que esses fatores de risco provavelmente terão diversos efeitos biológicos.

Conteúdo adaptado do site Spectrum News (https://spectrumnews.org/news/flurry-studies-hint-folic-acids-protective-role-autism/) e revisados de artigos publicados na PubMed:

BJØRK, Marte et al. Association of folic acid supplementation during pregnancy with the risk of autistic traits in children exposed to antiepileptic drugs in utero. JAMA neurology, v. 75, n. 2, p. 160-168, 2018.

SCHMIDT, Rebecca J. et al. Combined prenatal pesticide exposure and folic acid intake in relation to autism spectrum disorder. Environ Health Perspect, v. 125, n. 9, p. 097007, 2017.

GOODRICH, Amanda J. et al. Joint effects of prenatal air pollutant exposure and maternal folic acid supplementation on risk of autism spectrum disorder. Autism Research, v. 11, n. 1, p. 69-80, 2018.

Adaptado por Ana Carolina Gonçalves, redatora do Observatório do Autista®.

Eventos sobre TEA – atualização 30/03/2018

O Observatório do Autista® coletou informações sobre 60 eventos acerca do TEA e disponibiliza uma planilha com informações sobre o local de realização, resumo do evento, data e horário. A planilha está disponível em nosso repositório de dados no link abaixo:

Planilha com 60 eventos acerca do TEA – atualizado 30/03/2018

Estudos farmacêuticos da Roche e USP revelam novas estratégias de tratamento associados às terapias comportamentais

 

qq

As novas linhas de pesquisa apontam para a possibilidade de que o cérebro do autista produza substâncias em desequilíbrio e que isso poderia ser corrigido com medicamentos. Nenhum dos estudos indica ou promete cura, mas revela novos caminhos de tratamento associados às terapias comportamentais já indicadas. Hoje não há remédios específicos para o Transtorno do Espectro Autista (TEA), apenas drogas para atenuar sintomas relacionados, como irritabilidade ou insônia.

Um desses estudos obteve em fevereiro autorização da agência de vigilância sanitária americana, a FDA, para ter seus testes avaliados pelo órgão de forma prioritária, dada a inovação do trabalho e o ineditismo da droga proposta. Desenvolvida pela farmacêutica Roche, a pesquisa identificou que a vasopressina, um dos hormônios associados ao medo, funciona de forma diferente nos autistas, prejudicando a interação social. “A droga tem o objetivo de promover um reequilíbrio e, como consequência, mudar a performance na parte do cérebro responsável pelas emoções, onde o hormônio atua”, diz o diretor médico da empresa no País, Lenio Alvarenga.

Pessoas diagnosticadas com autismo têm quadros muito diferentes, pois o transtorno tem espectro amplo. Há desde casos leves, nos quais o paciente é independente e se comunica, até os mais severos, em que a comunicação não é verbal e o contato físico, evitado, mesmo com os pais. Por enquanto, a droga da Roche está sendo testada em autistas com quadros de leves a moderados.

Alvarenga diz que o remédio em desenvolvimento, administrado em comprimidos, já foi testado em 200 pessoas com TEA nos Estados Unidos. Segundo ele, os resultados indicam que o medicamento inibe a ação da vasopressina e, por isso, auxilia na interação e nos chamados comportamentos adaptativos do dia a dia, que envolvem comunicação e habilidades motoras.

Apesar de o medicamento estar entrando na fase 3 de testes, a última antes do pedido de registro, a Roche não arrisca estipular um prazo para que a droga esteja disponível no mercado.

Sinapses. Ainda em fase inicial, outra pesquisa relacionada ao desequilíbrio de uma substância no cérebro dos autistas também traz expectativa. Desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP), o trabalho aponta que pessoas com o transtorno produzem em excesso uma citocina específica – a interleucina 6. Segundo a responsável pelo estudo, a neurocientista Patrícia Beltrão Braga, do Instituto de Ciências Biomédicas, a substância é tóxica e, em alta quantidade, capaz de reduzir o número de sinapses pelos neurônios.

“Bloqueamos a produção em excesso e conseguimos resgatar o número de sinapses e sua funcionalidade. O ensaio mostra que há uma neuroinflamação no cérebro dos autistas, e ela é provocada pelos astrócitos, que são células que sustentam os neurônios”, diz Patrícia, que fez os testes em laboratório com base na produção de neurônios derivados da polpa de leite de indivíduos com autismo.

A vantagem da descoberta, segundo ela, é que já existem drogas capazes de bloquear a ação da IL 6 e, dessa forma, eliminar essa neuroinflamação. Se a pesquisa avançar, não seria preciso desenvolver um novo medicamento, apenas ampliar o uso dos existentes.

Para os pais de autistas, medicamentos que melhorassem, ainda que parcialmente, a interação social das crianças seriam um grande avanço. “Sou muito cuidadosa: primeiro vem o conforto e o bem-estar do meu filho. Mas também sou muito corajosa. Cercada de garantias de que não fariam mal, eu estaria disposta a testar novos mecanismos que pudessem tornar a vida dele mais tranquila e feliz. Seria minha maior alegria”, diz Juliana.

Adaptado do texto de Adriana Ferraz e Fabiana Cambricoli, O Estado de São Paulo, 25 Março 2018.

Quase metade dos adultos com autismo sofre de depressão

foto depressao enviada em 230318

De acordo com uma nova pesquisa publicada no Journal of Anormal Child Psychology, quase metade dos adultos com autismo sofrerá coma depressão clínica durante a vida.

A depressão tem consequências devastadoras na vida de um portador do Transtorno do Espectro Autista (TEA), podendo causar perda de habilidades que já foram trabalhadas e ensinadas, maior dificuldade de realizar funções do dia-a-dia e, no pior dos casos, o suicídio. Pessoas com autismo devem ser regularmente examinadas para que não desenvolva a depressão e, se caso for diagnosticado, acessar o tratamento adequado.

Até o momento, pesquisadores não sabiam a quantidade de indivíduos autista que sofrem com a depressão. Neste novo estudo, que envolveu uma revisão sistemática de quase 8.000 artigos científicos, revela evidências claras de que a depressão é altamente identificada tanto em crianças como em adultos com TEA. Também foi possível constatar que a depressão é mais comum em indivíduos com autismo que possuem mais inteligência.

Sintomas de depressão e autismo

A depressão clínica é definida pelo Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais como é uma doença mental que muitas vezes é caracterizada por períodos prolongados de tristeza. Sintomas adicionais incluem perda de interesse em atividades, mudanças fisiológicas (por exemplo, sono, apetite), alterações na cognição (por exemplo, sentimentos de inutilidade, problemas de concentração) e pensamentos e ações suicidas.

A depressão no autismo é definida pelos mesmos critérios, mas diagnosticar e detectar a manifestação da doença em pessoas autistas é um trabalho árduo. Os próprios autistas têm problemas de identificar e externar esses sintomas. O profissional que acompanha a pessoa autista deve se atentar as mudanças de comportamento ou comparar o quadro com outro indivíduo com o nível de autismo semelhante. Outro problema que os profissionais encontram é confundir os sintomas de depressão com o autismo porque algumas manifestações são parecidas, por exemplo, dificuldades nas interações sociais.

QI mais elevado, maiores taxas de depressão

Durante a revisão sistemática, descobriram que autistas com inteligência acima da média sofrem mais com a depressão. Em contra partida, na população em geral, as pessoas com menor inteligência possuem maiores taxas da doença. Apesar de não terem identificados os motivos na qual os indivíduos com inteligência superior estarem associados à depressão, criam-se hipóteses.

A primeira hipótese é que essas pessoas autistas com inteligência acima da média estejam mais conscientes das dificuldades de socialização decorrestes do autismo e, consequentemente, desenvolvem a depressão. A segunda hipótese é que indivíduos autistas com inteligência abaixo da média não consigam comunicar sobre seus sintomas e sentimentos, dificultando o diagnóstico da doença para esse subgrupo.

O impacto dos métodos científicos

Foi observado que os métodos utilizados influenciaram na identificação da depressão nos portadores de TEA. As taxas da doença foram maiores com o método de entrevistas padronizadas e estruturadas do que as taxas quando utilizaram os métodos menos formais. É possível que as entrevistas estejam realmente diagnosticando mais a doenças que os outros métodos, contudo, pode-se considerar que os resultados estejam distorcidos pelo fato das entrevistas não serem projetadas para as pessoas autistas. Foi analisado que a depressão é mais comum quando os sintomas são diretamente perguntados aos autistas do que seus cuidadores. Pode-se constatar que a falta de informação dos cuidadores em pesquisas interferem no resultado. Com o total de resultados analisados e comparados, certifica-se que a depressão é mais comum em autista do que se imaginava.

A pesquisa foi liderada por Chloe C. Hudson, doutoranda pela Universidade de Queen; Kate Harkness, professora de Psicologia e Psiquiatria e diretora do Mood Research Laboratory pela Universidade de Queen. O estudo foi subsidiado Social Sciences and Humanities Research Council, Canadian Institutes for Health Research, Ontario Mental Health Foundation, Universidade de Quenn e The Conversation CA.

Texto adaptado por Ana Carolina Gonçalves, da redação do Observatório do Autista®, direto do artigo publicado no site da The Conversation CA (https://theconversation.com/almost-half-of-adults-with-autism-struggle-with-depression-91889).

Medicamento utilizado em tratamento de câncer propõe combater sintomas de déficit social no autismo

As causas do Transtorno de Espectro Autista (TEA) não são totalmente esclarecidas, mas sabe-se que 90% dos casos de autismo são decorrentes de fatores genéticos. As mutações são um das razões do transtorno e ocorre em genes importantes que auxiliam na compreensão e desenvolvimento do organismo. Exemplo de mutação que pode ser atribuídas ao TEA é a haploinsuficiência – insuficiência de um gene devido redução do número de cópias herdadas dos pais que apresentam anomalias de características observáveis – do gene SHANK3, alvo de estudo desta pesquisa.

Publicada na Nature Neuroscience, cientistas coordenaram um pesquisa com o principio de que enzimas epigenéticas – que modificam o genoma, mas deixa o DNA intacto – tendem a normalizar a expressão gênica e melhorar os sintomas do TEA. Baseado nesse parâmetro, uma das proteínas escolhidas foi a romidepsina, uma histona de classe I (HDAC) e liberada pela Food and Drug Administration (US FDA) como tratamento de câncer.

Romidepsina – a proteína que alivia os sintomas do Autismo

Os cientistas escolheram a família de proteínas de HDAC que consegue silenciar genes através da condensação da cromatina (compactação do DNA com proteínas chamadas histonas). As proteínas de HDAC são importantes no processo cognitivo porque alteram os problemas da transcrição e a acetilação das histonas (descompactação da cromatina), dificuldades comumente observadas em transtornos mentais. Contudo, essas observações não foram alvos de experimentação do TEA, sendo a principal proposta do estudo.

No experimento, foram utilizados camundongos com haploinsuficiência do gene SHANK3 e camundongos selvagens (WT) tratados com romidepsina. O gene SHANK3 induzia a regulação positiva de HDAC2 e caracterizava os déficits sociais nos camundongos. A romidepsina, administrada em baixa dose uma vez ao dia, elevou de maneira significativa o nível de acetilação em camundongos deficientes de SHANK3 e não apresentou mudanças nos níveis de camundongos WT.

Uma vez que os níveis anormais de acetilação foram restaurados pela romidepsina, iniciou experimentos sociais com camundongos machos jovens deficientes de SHANK3 tratados com a proteína. Observou-se que um modelo experimental com estímulos sociais e não sociais que camundongos com deficiência do SHANK3 tratados com romidepsina passaram mais tempo analisando estímulos sociais do que camundongos tratados somente com solução salina. Não se constatou mudanças significativas em camundongos WT tratados com a romidepsina. Logo, pode-se confirmar que os resultados do tratamento de camundongos deficientes de SHANK3 sugerem que a romidepsina alivia os sintomas de déficit social.

Pesquisa foi liderada por Luye Qin, PhD, professor assistente de pesquisa; Kaijie Ma, pesquisadora científica; Zi-Jun Wang, Phd; bolsista de pós-doutorado, Emmanuel Matas, PhD; e Jing Wei, PhD, ex-bolsista de pós-doutorado, todos pelo Yan’s laboratory at the Department of Physiology and Biophysics e Zihua Hu, PhD, cientista de Bioinformática da New York State Center of Excellence in Bioinformatics and Life Sciences. A pesquisa foi fundada pela Nancy Lurie Marks Foundation e a National Institutes of Health (NIH).

Por Ana Carolina Gonçalves, da redação do Obervatório do Autista® 18.03.2018