Estudos farmacêuticos da Roche e USP revelam novas estratégias de tratamento associados às terapias comportamentais

 

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As novas linhas de pesquisa apontam para a possibilidade de que o cérebro do autista produza substâncias em desequilíbrio e que isso poderia ser corrigido com medicamentos. Nenhum dos estudos indica ou promete cura, mas revela novos caminhos de tratamento associados às terapias comportamentais já indicadas. Hoje não há remédios específicos para o Transtorno do Espectro Autista (TEA), apenas drogas para atenuar sintomas relacionados, como irritabilidade ou insônia.

Um desses estudos obteve em fevereiro autorização da agência de vigilância sanitária americana, a FDA, para ter seus testes avaliados pelo órgão de forma prioritária, dada a inovação do trabalho e o ineditismo da droga proposta. Desenvolvida pela farmacêutica Roche, a pesquisa identificou que a vasopressina, um dos hormônios associados ao medo, funciona de forma diferente nos autistas, prejudicando a interação social. “A droga tem o objetivo de promover um reequilíbrio e, como consequência, mudar a performance na parte do cérebro responsável pelas emoções, onde o hormônio atua”, diz o diretor médico da empresa no País, Lenio Alvarenga.

Pessoas diagnosticadas com autismo têm quadros muito diferentes, pois o transtorno tem espectro amplo. Há desde casos leves, nos quais o paciente é independente e se comunica, até os mais severos, em que a comunicação não é verbal e o contato físico, evitado, mesmo com os pais. Por enquanto, a droga da Roche está sendo testada em autistas com quadros de leves a moderados.

Alvarenga diz que o remédio em desenvolvimento, administrado em comprimidos, já foi testado em 200 pessoas com TEA nos Estados Unidos. Segundo ele, os resultados indicam que o medicamento inibe a ação da vasopressina e, por isso, auxilia na interação e nos chamados comportamentos adaptativos do dia a dia, que envolvem comunicação e habilidades motoras.

Apesar de o medicamento estar entrando na fase 3 de testes, a última antes do pedido de registro, a Roche não arrisca estipular um prazo para que a droga esteja disponível no mercado.

Sinapses. Ainda em fase inicial, outra pesquisa relacionada ao desequilíbrio de uma substância no cérebro dos autistas também traz expectativa. Desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP), o trabalho aponta que pessoas com o transtorno produzem em excesso uma citocina específica – a interleucina 6. Segundo a responsável pelo estudo, a neurocientista Patrícia Beltrão Braga, do Instituto de Ciências Biomédicas, a substância é tóxica e, em alta quantidade, capaz de reduzir o número de sinapses pelos neurônios.

“Bloqueamos a produção em excesso e conseguimos resgatar o número de sinapses e sua funcionalidade. O ensaio mostra que há uma neuroinflamação no cérebro dos autistas, e ela é provocada pelos astrócitos, que são células que sustentam os neurônios”, diz Patrícia, que fez os testes em laboratório com base na produção de neurônios derivados da polpa de leite de indivíduos com autismo.

A vantagem da descoberta, segundo ela, é que já existem drogas capazes de bloquear a ação da IL 6 e, dessa forma, eliminar essa neuroinflamação. Se a pesquisa avançar, não seria preciso desenvolver um novo medicamento, apenas ampliar o uso dos existentes.

Para os pais de autistas, medicamentos que melhorassem, ainda que parcialmente, a interação social das crianças seriam um grande avanço. “Sou muito cuidadosa: primeiro vem o conforto e o bem-estar do meu filho. Mas também sou muito corajosa. Cercada de garantias de que não fariam mal, eu estaria disposta a testar novos mecanismos que pudessem tornar a vida dele mais tranquila e feliz. Seria minha maior alegria”, diz Juliana.

Adaptado do texto de Adriana Ferraz e Fabiana Cambricoli, O Estado de São Paulo, 25 Março 2018.

Quase metade dos adultos com autismo sofre de depressão

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De acordo com uma nova pesquisa publicada no Journal of Anormal Child Psychology, quase metade dos adultos com autismo sofrerá coma depressão clínica durante a vida.

A depressão tem consequências devastadoras na vida de um portador do Transtorno do Espectro Autista (TEA), podendo causar perda de habilidades que já foram trabalhadas e ensinadas, maior dificuldade de realizar funções do dia-a-dia e, no pior dos casos, o suicídio. Pessoas com autismo devem ser regularmente examinadas para que não desenvolva a depressão e, se caso for diagnosticado, acessar o tratamento adequado.

Até o momento, pesquisadores não sabiam a quantidade de indivíduos autista que sofrem com a depressão. Neste novo estudo, que envolveu uma revisão sistemática de quase 8.000 artigos científicos, revela evidências claras de que a depressão é altamente identificada tanto em crianças como em adultos com TEA. Também foi possível constatar que a depressão é mais comum em indivíduos com autismo que possuem mais inteligência.

Sintomas de depressão e autismo

A depressão clínica é definida pelo Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais como é uma doença mental que muitas vezes é caracterizada por períodos prolongados de tristeza. Sintomas adicionais incluem perda de interesse em atividades, mudanças fisiológicas (por exemplo, sono, apetite), alterações na cognição (por exemplo, sentimentos de inutilidade, problemas de concentração) e pensamentos e ações suicidas.

A depressão no autismo é definida pelos mesmos critérios, mas diagnosticar e detectar a manifestação da doença em pessoas autistas é um trabalho árduo. Os próprios autistas têm problemas de identificar e externar esses sintomas. O profissional que acompanha a pessoa autista deve se atentar as mudanças de comportamento ou comparar o quadro com outro indivíduo com o nível de autismo semelhante. Outro problema que os profissionais encontram é confundir os sintomas de depressão com o autismo porque algumas manifestações são parecidas, por exemplo, dificuldades nas interações sociais.

QI mais elevado, maiores taxas de depressão

Durante a revisão sistemática, descobriram que autistas com inteligência acima da média sofrem mais com a depressão. Em contra partida, na população em geral, as pessoas com menor inteligência possuem maiores taxas da doença. Apesar de não terem identificados os motivos na qual os indivíduos com inteligência superior estarem associados à depressão, criam-se hipóteses.

A primeira hipótese é que essas pessoas autistas com inteligência acima da média estejam mais conscientes das dificuldades de socialização decorrestes do autismo e, consequentemente, desenvolvem a depressão. A segunda hipótese é que indivíduos autistas com inteligência abaixo da média não consigam comunicar sobre seus sintomas e sentimentos, dificultando o diagnóstico da doença para esse subgrupo.

O impacto dos métodos científicos

Foi observado que os métodos utilizados influenciaram na identificação da depressão nos portadores de TEA. As taxas da doença foram maiores com o método de entrevistas padronizadas e estruturadas do que as taxas quando utilizaram os métodos menos formais. É possível que as entrevistas estejam realmente diagnosticando mais a doenças que os outros métodos, contudo, pode-se considerar que os resultados estejam distorcidos pelo fato das entrevistas não serem projetadas para as pessoas autistas. Foi analisado que a depressão é mais comum quando os sintomas são diretamente perguntados aos autistas do que seus cuidadores. Pode-se constatar que a falta de informação dos cuidadores em pesquisas interferem no resultado. Com o total de resultados analisados e comparados, certifica-se que a depressão é mais comum em autista do que se imaginava.

A pesquisa foi liderada por Chloe C. Hudson, doutoranda pela Universidade de Queen; Kate Harkness, professora de Psicologia e Psiquiatria e diretora do Mood Research Laboratory pela Universidade de Queen. O estudo foi subsidiado Social Sciences and Humanities Research Council, Canadian Institutes for Health Research, Ontario Mental Health Foundation, Universidade de Quenn e The Conversation CA.

Texto adaptado por Ana Carolina Gonçalves, da redação do Observatório do Autista®, direto do artigo publicado no site da The Conversation CA (https://theconversation.com/almost-half-of-adults-with-autism-struggle-with-depression-91889).

Medicamento utilizado em tratamento de câncer propõe combater sintomas de déficit social no autismo

As causas do Transtorno de Espectro Autista (TEA) não são totalmente esclarecidas, mas sabe-se que 90% dos casos de autismo são decorrentes de fatores genéticos. As mutações são um das razões do transtorno e ocorre em genes importantes que auxiliam na compreensão e desenvolvimento do organismo. Exemplo de mutação que pode ser atribuídas ao TEA é a haploinsuficiência – insuficiência de um gene devido redução do número de cópias herdadas dos pais que apresentam anomalias de características observáveis – do gene SHANK3, alvo de estudo desta pesquisa.

Publicada na Nature Neuroscience, cientistas coordenaram um pesquisa com o principio de que enzimas epigenéticas – que modificam o genoma, mas deixa o DNA intacto – tendem a normalizar a expressão gênica e melhorar os sintomas do TEA. Baseado nesse parâmetro, uma das proteínas escolhidas foi a romidepsina, uma histona de classe I (HDAC) e liberada pela Food and Drug Administration (US FDA) como tratamento de câncer.

Romidepsina – a proteína que alivia os sintomas do Autismo

Os cientistas escolheram a família de proteínas de HDAC que consegue silenciar genes através da condensação da cromatina (compactação do DNA com proteínas chamadas histonas). As proteínas de HDAC são importantes no processo cognitivo porque alteram os problemas da transcrição e a acetilação das histonas (descompactação da cromatina), dificuldades comumente observadas em transtornos mentais. Contudo, essas observações não foram alvos de experimentação do TEA, sendo a principal proposta do estudo.

No experimento, foram utilizados camundongos com haploinsuficiência do gene SHANK3 e camundongos selvagens (WT) tratados com romidepsina. O gene SHANK3 induzia a regulação positiva de HDAC2 e caracterizava os déficits sociais nos camundongos. A romidepsina, administrada em baixa dose uma vez ao dia, elevou de maneira significativa o nível de acetilação em camundongos deficientes de SHANK3 e não apresentou mudanças nos níveis de camundongos WT.

Uma vez que os níveis anormais de acetilação foram restaurados pela romidepsina, iniciou experimentos sociais com camundongos machos jovens deficientes de SHANK3 tratados com a proteína. Observou-se que um modelo experimental com estímulos sociais e não sociais que camundongos com deficiência do SHANK3 tratados com romidepsina passaram mais tempo analisando estímulos sociais do que camundongos tratados somente com solução salina. Não se constatou mudanças significativas em camundongos WT tratados com a romidepsina. Logo, pode-se confirmar que os resultados do tratamento de camundongos deficientes de SHANK3 sugerem que a romidepsina alivia os sintomas de déficit social.

Pesquisa foi liderada por Luye Qin, PhD, professor assistente de pesquisa; Kaijie Ma, pesquisadora científica; Zi-Jun Wang, Phd; bolsista de pós-doutorado, Emmanuel Matas, PhD; e Jing Wei, PhD, ex-bolsista de pós-doutorado, todos pelo Yan’s laboratory at the Department of Physiology and Biophysics e Zihua Hu, PhD, cientista de Bioinformática da New York State Center of Excellence in Bioinformatics and Life Sciences. A pesquisa foi fundada pela Nancy Lurie Marks Foundation e a National Institutes of Health (NIH).

Por Ana Carolina Gonçalves, da redação do Obervatório do Autista® 18.03.2018

 

Uma nova pesquisa revela um possível progresso no desenvolvimento para adultos com TEA

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A cada dia as pesquisas em torno da detecção precoce e tratamento para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) estão mais avançadas, porém existe uma carência no estudo de métodos de intervenção quando se fala dos adultos com TEA. Esses indivíduos apresentam grandes obstáculos como desemprego, problemas de socialização e baixa qualidade de vida, decorrentes das dificuldades de compreensão e cognição das informações produzidas durante o dia-a-dia.

Uma nova pesquisa em colaboração com a Escola de Serviço Social e o Departamento de Psiquiatria da Universidade de Pittsburgh revela um possível progresso no desenvolvimento para adultos com TEA. Intitulado como “Terapia de aprimoramento cognitivo para Transtorno do Espectro Autista em adultos: resultados de um ensaio clínico randomizado por 18 meses”, a pesquisa foi liderada por Shaun Eack, doutor em Serviço Social, David E. Epperson, professor de Serviço Social e Psiquiatria pela Universidade de Pittsburgh, e Nancy Minshew, professora de Psiquiatria e Neurologia pela Universidade de Pittsburgh.

O estudo testou dois tratamentos diferentes em 54 adultos, sendo eles a terapia de aprimoramento cognitivo (TAC) e a terapia de suporte enriquecida (TSE). Os tratamentos foram distribuídos aleatoriamente para os participantes.

O TAC consiste na evolução e melhora da compreensão social através de exercícios computadorizados em duplas para trabalhar questões como atenção, memoria e a resolução de problemas. Após vários meses do experimento computadorizado, foram realizados pequenos exercícios em grupo para auxiliar na interação social e compreensão da perspectiva de outro indivíduo. Tanto os exercícios computadorizados e em grupos tinham duração de três horas por semana.

O tratamento TSE se baseia em práticas tradicionais de psicoterapia, como a terapia cognitivo-comportamental, para ajudar os adultos com TEA controlar suas emoções e estresse, aprimorar suas relações sociais e enfrentar problemas do cotidiano. Exclusivo do tratamento TSE, pesquisadores incluíram também projetos educativos para que os próprios portadores do TEA entendam sua condição e a natureza do autista.

Publicada na revista online Autism Research, o resultado do experimento teve resultados promissores. Após 18 meses de tratamento, os adultos com autismo que receberam o tratamento TAC tiveram avanços significativos na função neurocognitiva, principalmente na atenção e sua capacidade de processar informações rapidamente. Esses avanços ajudaram os participantes no mercado de trabalho.

O tratamento do TSE ajudou na interação cognitivo-social dos indivíduos estudados, porém demorou cerca de 9 meses para que os resultados aparecessem em comparação com o tratamento TAC. Eack comentou que os principais tratamentos realizados com adultos autistas apenas trabalham o aspecto comportamental dos indivíduos e não valorizam as atividades neurocognitivas que são imprescindíveis para uma qualidade de vida e independência destes adultos. Eack também espera que os tratamentos sejam divulgados, uma vez que as organizações de apoio às crianças com TEA não acolhem os adultos e sofrem com as dificuldades da vida adulta.

Minshew acredita que, pela eficácia do experimento, os tratamentos sejam acrescentados aos programas de intervenções tradicionais, inclusive para os indivíduos que não tenham autismo, mas apresentam dificuldades de atenção, socialização e compreensão, e pelo menos 50% dos autistas que estão na média ou acima do desenvolvimento intelectual e da linguagem formal.

Essa pesquisa foi fundada pelo Instituto Nacional de Saúde Mental (National Institute of Mental Healtg, NIMH) e notícia adaptado do site Science Daily (https://www.sciencedaily.com/releases/2018/02/180207164039.htm).

Adaptado por Ana Carolina Gonçalves, redatora do Observatório do Autista®.